BENIGNAS FLORESTAS

 

Água Grande

Falo-te agora de um rio aqui nascente
Lodo e agrião, ondas mansas em corrente
Um rio recôndito como o coração da ilha.

Água Grande não tão Congo não tão Nilo
Água Grande sem canoas, sem regatas
Apenas rio
Cumprindo no mar seu destino de água.

Mas tu que conheces todas as cidades
Tu, de tantos rios peregrino habitante
Não conheces o rosto da minha cidade
Não conheces o rio no corpo da minha cidade

Água Grande além de todas as viagens
Rio apenas, irmão de todos os rios.

As vértebras da montanha
Vem testemunhar este ingente nascimento
Esta aprendizagem de audácia e paciência.

O leite das mães tem a pureza das fontes puras
As manhãs nascem sempre repentinas
São benignas as florestas
E o mar faísca de inusitadas ofertas.

Tão tépido o ar, tão doce a doçura desta aragem
Tanto agora neste casal de adolescentes
que se entreolha
sobre o muro da Baía…


E contudo, tanto leme derramado, quanta
perda e tanta busca no rumo deste remo…

Eis a casa que me habita, árdua herança
que me instiga
Irrevogável projecto de prumo e claridade.

Diz-me do duro caroço dos frutos
Inexoráveis
Diz-me apenas das vértebras da montanha

Aqui onde o Atlântico será sempre azul
Aqui onde os turistas ascendem a um
neutro paraíso.

Conceição Lima (São Tomé e Príncipe)


Fotografías : https://eltrapezio.eu/, minube, fotosmundo e STeP.T

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